
“Ao aproximar-se o inverno parisiense, estação das brisas mordentes, das chuvas frias e dos céus incertos, recebi a noticia de que o príncipe de Mônaco — um sábio tornado célebre pelas suas pesquisas pessoais — construiria de boa vontade uma garage aeronáutica sobre a própria praia de La Condamine, de onde eu podia sair para o Mediterrâneo, de modo a continuar os meus exercícios aéreos durante o inverno.”
“...Minha primeira ascensão no Mediterraneo, na manhã de 29 de janeiro de 1902, mostrou-me infelizmente tambem outra coisa, que a situação do aeródromo tinha sido mal calculada. Surprezas que esperam a cada passo o experimentador nesse campo tão recentemente rasgado, da navegação aérea....”
“Eu manteria a minha aeronave sempre perfeita e cheia de gás, poderia deixar a garagem quando o bom tempo convidasse, e ai me refugiar, à aproximação das tormentas. A garagem seria construída à beira-mar e eu teria toda a extensão do Mediterrâneo para fazer o guide-rope”.
“...Se a situação do novo aeródromo me encantava pelo que me prometia de comodidade e proteção aos meus exercícios de inverno, não me sorria menos a perspectiva de dirigir a minha aeronave sobre o mar...”.

Um polemista feroz, o inexorável Henri de Rochefort, era freqüentador assíduo do aeródromo. Ele saía do seu hotel apenas para ir apreciar o trabalho do inventor. Publicou um artigo intitulado “o aeróstato do futuro” :

“...Freqüentemente desço de La Turbie, a fim de ir ver Santos-Dumont no mesmo hall onde ele trabalha no aperfeiçoamento do balão com que tão bem contornou a Torre Eiffel, para espanto daqueles que não acreditavam nessa proeza.
As suas evoluções sobre a baía e o rochedo de Mônaco não deixam mais duvida acerca do sucesso da viagem aérea, que ele se propõe a tentar proximamente, entre a Côte d’Arzur e a Córsega. Será um acontecimento extraordinário, não só porque marcará imenso progresso na solução do tão estudado problema da direção dos aeróstatos, mas porque os resultados que dele decorrerão são suscetíveis, pode-se dizê-lo, de mudar a face do mundo ...”
“ ...Está sabido já o que é o "guide-rope". Falei dele a propósito da minha primeira experiência em balão esférico. Quando, sobre o solo, não se encontram sinão superfícies unidas, estradas ou mesmo ruas, quando, por felicidade, não há árvores de mais, edifícios, muros, postes e fios telegráficas, "trolleys" ou outros obstáculos da mesma natureza, o "guide-rope" é um auxiliar tão precioso para aeronave como para o balão esférico. Para mim é bem mais que isso: é o mais essencial dos meus pesos deslocáveis.
Sobre a extensão ilimitada do mar, por ocasião da. minha primeira ascensão em Mônaco, ele fez sua verdadeira prova como estabilizador. Sua muito fraca resistência ao arrastar na água está fora de qualquer proporção com o peso da sua extremidade flutuante. ...”
Santos no livro Meus Balões conta também sobre um flerte na Bahia de Mônaco:
“ ...Desviou o olhar e notou que dois iates, de velas enfunadas, vinham ao seu encontro. Quando passou bem ppr cima deles, ouviu este grito: -“Bravo!” "uma graciosa silhueta feminina", que sacudiu um lenço vermelho. Alberto voltou-se, desejando fazer um gesto para retribuir a saudação, mas teve a surpresa de não mais enxergar o vulto. Devido à velocidade do aeróstato, as embarcações já estavam longe...”
O principe Albert estava tão entusiasmado com as ascensões que parecia fazer todas as vontades do aviador:
“...não peço tanto, basta construir uma plataforma de aterrisagem contra o dique...”
Tanto que correu riscos desnecessários:
“...Lançando um olhar retrospectivo sobre as minhas diversas experiências, constato com surpresa que o maior perigo que corri, passou despercebido, mesmo para mim. Ocorreu no fim da mais feliz das minhas ascensões no Mediterrâneo, no instante em que o príncipe de Mônaco, ao tentar agarrar o meu guide-rope, foi atirado às cambalhotas no fundo do seu naviozinho.
Eu havia entrado na baía após ter efetuado a viagem de regresso, costeando e estava sendo rebocado para o aeródromo. A aeronave descera muito perto da água, e fizeram-na baixar ainda mais, puxando-a pelo guide-rope, e tal ponto que ela ficou a poucos pés da chaminé da chalupa. Ora, essa chaminé expelia fagulhas vivas! Uma só bastaria para, subindo, produzir uma queimadela no balão, inflamar o hidrogênio e reduzir-nos a pó, o balão e eu!...”
Fim da temporada em Mônaco
“...De pé na plataforma, os homens sustentaram o aparelho enquanto eu punha o motor em marcha, desembaraçava-me do excesso de lastro, e deslocava o "guide- rope" de forma a levantar obliquamente a proa da aeronave. O motor tossiu, roncou, depois o propulsor começou a girar. Pela terceira vez, em Mônaco, pronunciei a formula:
— Larguem tudo! A aeronave deslizou em oblíquo e levemente elevou-se.
Então, aumentada a força do propulsor, um grande arranco conduziu-me por cima da baía. Impeli o "guide-rope" para a proa afim de tomar a horizontal. E a aeronave zarpou como uma flecha, deixando ver na traseira, a flutuar, a bandeira escarlate em que se lia a inscrição simbólica — as iniciais do primeiro verso dos "Lusíadas" de Camões, o poeta épico da minha Raça:
"Por mares nunca d'antes navegados!..."
“...A 14 de fevereiro de 1902, ás duas horas e meia da tarde, a solida aeronave que havia ganho o prêmio Deutsch deixou o aeródromo de La Condamine para o que ia ser a sua última viagem. Apenas se alçara ao espaço, começou a se comportar mal, mergulhando pesadamente. Não estava sinão imperfeitamente cheia, ao sair da garage; em conseqüência, carecia de força ascensional. Para conservar a altitude propicia, acentuei a diagonal de subida e deixei o propulsor continuar sua arrancada ascendente. Si a aeronave mergulhava é porque naturalmente sofria o esforço contrário, da gravidade.
A' sombra, no aerodromo, ele encontrara uma atmosfera relativamente fresca. Estava agora fora, em pleno sol. E isto foi motivo para rarefazer rapidamente o hidrogênio confinante com o invólucro de seda, que se transportou para o seu ponto culminante, isto é, para a proa. Eu havia dado a esta uma inclinação exagerada, e o balão cada vez obliquava ainda mais, ao ponto de, em certo momento, parecer-me que havia tomado a posição perpendicular.
Antes que pudesse corrigir esse desvio do meu cruzador aéreo, várias das cordas diagonais, submetidas a uma insólita pressão obliqua, começaram a partir- se; outras, notadamente as do leme, embaraçavam-se no propulsor.
Si eu não impedisse o atrito do propulsor contra o invólucro do balão, este rasgar-se-ia em poucos minutos; o gás fugiria em massa; eu seria violentamente precipitado nas ondas.
Parei o motor. Minha situação tornava-se igual á de um piloto de balão esférico comum.
Fiquei á mercê dos ventos. E estes me jogavam em direção á praia. Meu destino era ir bater contra os fios telegráficos, as árvores, os ângulos das casas de Monte Carlo.
Só havia um partido a tomar. Puchei a válvula de manobra e deixei fugir uma quantidade suficiente de hidrogênio. Desci lentamente sobre a água, onde a aeronave imergiu...."
“...Minha primeira ascensão no Mediterraneo, na manhã de 29 de janeiro de 1902, mostrou-me infelizmente tambem outra coisa, que a situação do aeródromo tinha sido mal calculada. Surprezas que esperam a cada passo o experimentador nesse campo tão recentemente rasgado, da navegação aérea....”
“Eu manteria a minha aeronave sempre perfeita e cheia de gás, poderia deixar a garagem quando o bom tempo convidasse, e ai me refugiar, à aproximação das tormentas. A garagem seria construída à beira-mar e eu teria toda a extensão do Mediterrâneo para fazer o guide-rope”.
“...Se a situação do novo aeródromo me encantava pelo que me prometia de comodidade e proteção aos meus exercícios de inverno, não me sorria menos a perspectiva de dirigir a minha aeronave sobre o mar...”.

Um polemista feroz, o inexorável Henri de Rochefort, era freqüentador assíduo do aeródromo. Ele saía do seu hotel apenas para ir apreciar o trabalho do inventor. Publicou um artigo intitulado “o aeróstato do futuro” :

“...Freqüentemente desço de La Turbie, a fim de ir ver Santos-Dumont no mesmo hall onde ele trabalha no aperfeiçoamento do balão com que tão bem contornou a Torre Eiffel, para espanto daqueles que não acreditavam nessa proeza.
As suas evoluções sobre a baía e o rochedo de Mônaco não deixam mais duvida acerca do sucesso da viagem aérea, que ele se propõe a tentar proximamente, entre a Côte d’Arzur e a Córsega. Será um acontecimento extraordinário, não só porque marcará imenso progresso na solução do tão estudado problema da direção dos aeróstatos, mas porque os resultados que dele decorrerão são suscetíveis, pode-se dizê-lo, de mudar a face do mundo ...”
“ ...Está sabido já o que é o "guide-rope". Falei dele a propósito da minha primeira experiência em balão esférico. Quando, sobre o solo, não se encontram sinão superfícies unidas, estradas ou mesmo ruas, quando, por felicidade, não há árvores de mais, edifícios, muros, postes e fios telegráficas, "trolleys" ou outros obstáculos da mesma natureza, o "guide-rope" é um auxiliar tão precioso para aeronave como para o balão esférico. Para mim é bem mais que isso: é o mais essencial dos meus pesos deslocáveis.
Sobre a extensão ilimitada do mar, por ocasião da. minha primeira ascensão em Mônaco, ele fez sua verdadeira prova como estabilizador. Sua muito fraca resistência ao arrastar na água está fora de qualquer proporção com o peso da sua extremidade flutuante. ...”
Santos no livro Meus Balões conta também sobre um flerte na Bahia de Mônaco:
“ ...Desviou o olhar e notou que dois iates, de velas enfunadas, vinham ao seu encontro. Quando passou bem ppr cima deles, ouviu este grito: -“Bravo!” "uma graciosa silhueta feminina", que sacudiu um lenço vermelho. Alberto voltou-se, desejando fazer um gesto para retribuir a saudação, mas teve a surpresa de não mais enxergar o vulto. Devido à velocidade do aeróstato, as embarcações já estavam longe...”
O principe Albert estava tão entusiasmado com as ascensões que parecia fazer todas as vontades do aviador:
“...não peço tanto, basta construir uma plataforma de aterrisagem contra o dique...”
Tanto que correu riscos desnecessários:
“...Lançando um olhar retrospectivo sobre as minhas diversas experiências, constato com surpresa que o maior perigo que corri, passou despercebido, mesmo para mim. Ocorreu no fim da mais feliz das minhas ascensões no Mediterrâneo, no instante em que o príncipe de Mônaco, ao tentar agarrar o meu guide-rope, foi atirado às cambalhotas no fundo do seu naviozinho.

Eu havia entrado na baía após ter efetuado a viagem de regresso, costeando e estava sendo rebocado para o aeródromo. A aeronave descera muito perto da água, e fizeram-na baixar ainda mais, puxando-a pelo guide-rope, e tal ponto que ela ficou a poucos pés da chaminé da chalupa. Ora, essa chaminé expelia fagulhas vivas! Uma só bastaria para, subindo, produzir uma queimadela no balão, inflamar o hidrogênio e reduzir-nos a pó, o balão e eu!...”
Fim da temporada em Mônaco
“...De pé na plataforma, os homens sustentaram o aparelho enquanto eu punha o motor em marcha, desembaraçava-me do excesso de lastro, e deslocava o "guide- rope" de forma a levantar obliquamente a proa da aeronave. O motor tossiu, roncou, depois o propulsor começou a girar. Pela terceira vez, em Mônaco, pronunciei a formula:
— Larguem tudo! A aeronave deslizou em oblíquo e levemente elevou-se.
Então, aumentada a força do propulsor, um grande arranco conduziu-me por cima da baía. Impeli o "guide-rope" para a proa afim de tomar a horizontal. E a aeronave zarpou como uma flecha, deixando ver na traseira, a flutuar, a bandeira escarlate em que se lia a inscrição simbólica — as iniciais do primeiro verso dos "Lusíadas" de Camões, o poeta épico da minha Raça:
"Por mares nunca d'antes navegados!..."
“...A 14 de fevereiro de 1902, ás duas horas e meia da tarde, a solida aeronave que havia ganho o prêmio Deutsch deixou o aeródromo de La Condamine para o que ia ser a sua última viagem. Apenas se alçara ao espaço, começou a se comportar mal, mergulhando pesadamente. Não estava sinão imperfeitamente cheia, ao sair da garage; em conseqüência, carecia de força ascensional. Para conservar a altitude propicia, acentuei a diagonal de subida e deixei o propulsor continuar sua arrancada ascendente. Si a aeronave mergulhava é porque naturalmente sofria o esforço contrário, da gravidade.
A' sombra, no aerodromo, ele encontrara uma atmosfera relativamente fresca. Estava agora fora, em pleno sol. E isto foi motivo para rarefazer rapidamente o hidrogênio confinante com o invólucro de seda, que se transportou para o seu ponto culminante, isto é, para a proa. Eu havia dado a esta uma inclinação exagerada, e o balão cada vez obliquava ainda mais, ao ponto de, em certo momento, parecer-me que havia tomado a posição perpendicular.
Antes que pudesse corrigir esse desvio do meu cruzador aéreo, várias das cordas diagonais, submetidas a uma insólita pressão obliqua, começaram a partir- se; outras, notadamente as do leme, embaraçavam-se no propulsor.
Si eu não impedisse o atrito do propulsor contra o invólucro do balão, este rasgar-se-ia em poucos minutos; o gás fugiria em massa; eu seria violentamente precipitado nas ondas.
Parei o motor. Minha situação tornava-se igual á de um piloto de balão esférico comum.
Fiquei á mercê dos ventos. E estes me jogavam em direção á praia. Meu destino era ir bater contra os fios telegráficos, as árvores, os ângulos das casas de Monte Carlo.
Só havia um partido a tomar. Puchei a válvula de manobra e deixei fugir uma quantidade suficiente de hidrogênio. Desci lentamente sobre a água, onde a aeronave imergiu...."























De repente alguém me grita qualquer coisa. Trata-se, evidentemente de uma ilusão, pois não há ninguém por ali àquela hora. Mas não! Preciso acreditar em meus ouvidos! É realmente para mim que uma voz misteriosa grita: ‘Mova-se para a direita! Minha corda-guia vai atingi-lo’. É ele outra vez! Sempre ele! Ele, acima de todos! Desce mansamente na sua sacada, e seus criados trazem-lhe o café da manhã.”




A heroína, uma jovem e lindíssima cubana [Aída D´Acosta], muito relacionada na sociedade de Nova York, (…) manifestara-me seu ardente desejo de voar. (…) O simples fato de haver consentido, com a condição que a pretendente recebesse primeiramente algumas lições para a manobra do motor e dos maquinismos, diz eloqüentemente, suponho, da minha confiança no n° 9. Essas lições foram nem número de três, após o que,
quando chegou a data de 29 de junho de 1903, que ficará memorável na história da aerostação navegável, minha jovem discípula elevou-se dos terrenos da minha estação, no menor dos dirigíveis possíveis.

Subi de novo, contornei a Torre, a uma altura de 250 metros, sobre uma enorme multidão que aí estacionava à minha espera.
A volta foi demorada. O vento era contrário. O motor, que até então havia se comportado bem, assim que deixou a Torre para trás uns 500 metros, ameaçou parar. Tive um instante de grave
Não sabia ainda qual o tempo exato. Gritei: - Ganhei? Foi a multidão que me respondeu: - Sim! Pois bem, alguns senhores quiseram que fosse esse o tempo oficial! Grandes polêmicas. Tive comigo toda a imprensa e o povo de Paris e também Son Altesse Imperiale le Prince Roland Bonaparte, presidente da Comissão Científica que ia julgar o assunto. O voto me foi favorável.”
Vi o propulsor cortá-las e arrancá-las. Parei o motor. 

a extremidade do meu balão alongado, que conservava ainda todo o seu gás, foi bater contra um telhado mesmo no momento de franqueá-lo. 






que, dentro dos cinco anos seguintes, partindo de St. Cloud, que era então onde se achava o Parque do Club, circunavegasse a Torre Eifel e voltasse ao ponto de partida, tudo em menos de 30 minutos. Acrescentou mais, que no fim de cada ano, caso não fosse ganho o prêmio, se distribuíssem os juros do dinheiro entre os que melhores provas tivessem obtido. Era sentir geral que cinco anos se passariam sem que o prêmio fosse ganho. Precisava atingir a uma velocidade de mais ou menos 30 km por hora. No dia seguinte à instituição do prêmio Deutsch,


